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segunda-feira, 28 de abril de 2014 Sem categoria | 16:33

Professores em férias o ano todo

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Estamos no fim de abril uma das professoras dos meus filhos acaba de voltar de férias. Mês que vem vai ser a vez de outra descansar. O semestre vai acabar e ainda será grande a fila dos docentes que esperam sua vez para gozar do direito legal. Parece inacreditável, mas é a realidade de 91 Centros de Educação Infantil municipais de São Paulo este ano: professores em férias durante o período letivo e trabalhando durante as férias escolares.

Como em todos os anos, a Justiça obrigou a Prefeitura de São Paulo a oferecer atendimento em janeiro às crianças cujas famílias declarassem não ter como cuidar dos pequenos durante as férias. A questão é recorrente. O secretário municipal de Educação da gestão anterior, Alexandre Schneider, levou o assuntou ao Conselho Nacional de Educação em 2011 e argumentou que dispensar as férias seria tratar a etapa menos como escola e mais como assistência social – o que já foi e não é mais desde 2001.

A instituição consultiva do Ministério da Educação concordou com o então chefe da pasta em São Paulo. “Férias são direito da criança para estreitar vínculo afetivo com a família e ter outras vivências”, diz o documento que, por coincidência, foi feito pelo atual secretário municipal que, na época, era conselheiro nacional. A Defensoria Pública apelou e disse que havia casos em que ninguém poderia tomar conta dos alunos. Para estes, foi estabelecido que a Assistência Social deveria tomar providências, ainda que com auxílio de outras pastas e até mesmo dentro das creches existentes. Em 2013, com a homologação do documento pelo Ministério da Educação, as funções pareciam claras. Em vez disto, no entanto, a Secretaria Municipal de Educação caçou as férias de 1.273 professores em janeiro de 2014.

Agora, educadores efetivos que traçam planos pedagógicos para o ano todo com suas turmas e da etapa em que o vínculo afetivo é mais importante – dos zero aos 3 anos de idade – deixam suas salas em pleno período de aulas. Os substitutos são os próprios profissionais de apoio das unidades, como se eles não tivessem função caso os titulares estivessem lá. 

A situação fica ainda mais descabida quando analisada a função destes docentes em janeiro. Das 8.013 crianças inscritas de toda a cidade, menos de 30% compareceram diariamente. A média foi de 2.316 alunos por dia. Esta era uma conta previsível. Todos os anos – inclusive por falta de conscientização efetiva suficiente – pais inscrevem crianças que, não só não precisavam do atendimento como, de fato, não o usam.

Falta aproximação com as famílias para expor as limitações, faltam equipamentos e pessoal de esporte, lazer e assistência para lidar com as crianças em janeiro, mas acima de tudo, falta compromisso. Se houvesse, não se comprometeria a qualidade do ano todo do que é dever da Educação em nome de um atendimento pontual e que caberia à Assistência Social.

 

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sexta-feira, 4 de abril de 2014 Sem categoria | 06:00

Hoje não tem aula. Tomara que haja congestionamento

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Hoje meus filhos e centenas de milhares de alunos da rede municipal de ensino de São Paulo não têm aulas por conta da paralisação dos professores anunciada durante toda a semana. Mães que contam com creches estão improvisando, alunos do ensino fundamental deixarão de aprender algo, de ter confiança e continuidade na sua formação. Eu podia listar aqui muitas outras consequências que a falta de aulas acarreta, mas fora os alunos, os pais e os educadores – que já conhecem e vivem estes problemas – quase ninguém ia se interessar. A falta de educação pública (de qualidade) só parece interessar há muitos quando vira um número e cabe em uma manchete. Só tem um jeito de fazer o assunto se tornar comentado: trânsito.

Isso me lembra o episódio mais triste que ocorreu desde que meus filhos começaram a ir para creche. No dia 13 de março a Favela do Nove, vizinha do Ceagesp, pegou fogo e todos as casas foram queimadas. Ninguém morreu, mas também ninguém teve tempo de arrumar as malas. Eu soube quando cheguei uns minutos adiantada para pegar meus filhos e vi um colega saindo mais cedo nos braços de um parente que nunca havia visto antes. Logo em seguida a vice-diretora me contou. Depois a professora também comentou. A escola se envolveu totalmente e dezenas de sacolas com doações começaram a se amontoar. Na mídia, só houve um registro com foto sem nenhuma vítima com voz.

No dia seguinte, enquanto quem tinha qualquer envolvimento mínimo ainda não conseguia parar de pensar no incêndio e naquelas crianças – brincalhonas, espertas, cheias de potencial, sem casa, sem roupa, sem comida – caminhoneiros fizeram um protesto pela cobrança no estacionamento do Ceagesp. Houve barricadas e trânsito e virou a manchete de todos os sites. Amigos e familiares me procuraram para avisar e saber se eu estava bem. Helicópteros de emissoras de televisão gastaram horas no bairro.

A paralisação dos professores hoje é por não terem recebido da Prefeitura garantia de todos os reajustes negociados no encerramento da última greve, há apenas 10 meses. Se você não viu qualquer notícia sobre isso, não é porque lê pouco. Também não é só culpa da imprensa que em geral reflete a falta de interesse dos leitores.

Apesar dos alunos estarem sem aulas desde às 7h, o assunto deve ganhar força no começo da tarde, quando está marcado um protesto com outros servidores municipais. Não devia ser necessário causarem trânsito no Centro de São Paulo para que o pleito dos educadores pudesse ser ouvido, mas é.

Se você ficar parado no seu carro no final da tarde, pense em uma das mães que deixou de ganhar o dia todo de trabalho por falta de creche. Se tiver qualquer desconforto, pense em quão confortável é para os responsáveis por formar 90% da população andar no sol gritando e carregando cartazes. Se chegar atrasado em um compromisso, mentalize uma das crianças que chegará atrasada às letras e aos números e a todo o aprendizado de que precisa – não apenas por este dia sem aula, mas pelos problemas de falta de acesso à escola que um dia de paralisação bem poderiam lembrar.


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segunda-feira, 10 de março de 2014 política | 15:33

Indignação causada pelo Fantástico pode e deve ter rumo

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A reportagem especial do Fantástico sobre a precariedade em escolas públicas de Alagoas, Maranhão e Pernambuco chocou o telespectador. Ótimo. O choque é importante. Chama a atenção de quem nunca se interessa pelo tema e reacende a indignação de quem o estuda ou vive. Acabados os 17 minutos, no entanto, quando todos pareciam dispostos ao debate e até mesmo a ação – arrisco dizer que uma campanha ali teria mais voluntários do que para vítimas de enchentes – o assunto morre. Como se fosse um fenômeno natural e não houvesse responsáveis e nada a ser feito. “Semana que vem vamos mostrar o contrário”, diz a apresentadora.

O filtro cheio de água amarela e as carteiras mais destruídas do que entulhos nas caçambas nas ruas foram imagens poderosas. Quero reforçar a importância de mostrá-las e parabenizar os colegas que as fizeram, mas a falta de contexto faz parecer que se trata de fatalidade. No final da reportagem, as prefeituras – entre as mais pobres do Brasil – foram chamadas a responder e uma nota é resumida sobre a escola estadual.

Os três Estados citados têm governos que são, constitucionalmente, corresponsáveis pela educação básica. Em Alagoas, que amarga repetidamente os piores índices em educação, o governador é Teotônio Vilela Filho (PSDB) há 7 anos. Em Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB e pré-candidato a presidência, também está no cargo desde 2007. No Maranhão, Roseana Sarney (PMDB) assumiu em 2009, mas todos sabemos que a família dela está no poder por lá há mais tempo de que o cargo existe.

Dar estes nomes, seus partidos e suas justificativas seria garantir o mínimo de informação sobre os responsáveis. Consequentemente, uma pista de a quem dirigir a indignação. Poderia se mostrar ainda como os R$ 3 mil por ano por aluno repassados pelo governo federal a Estados e municípios são insuficiente principalmente em locais carentes, rurais e de acesso difícil e como o Plano Nacional de Educação, que tem na Meta 8 reduzir a desigualdade está emperrado no Congresso há quase 4 anos – sendo que prevê políticas prioritárias para esta década.

Faltou diferenciar o “show da vida” de uma dramaturgia. Se fosse uma novela, os telespectadores saberiam que basta manter a indignação que o vilão apareceria e, quase certo, seria punido. Não é. A precariedade das escolas é na nossa vida real. Aquelas crianças existem e vão continuar bebendo aquela água. Não há autor, somos nós os únicos que podemos filtrar a sujeira. 

 

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014 diversidade, Educação infantil, professores, rede particular | 07:00

A insatisfação com uma escola pública levou leitora a…

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Este blog sempre teve a pretensão de inspirar leitores a participar da escola pública como forma de construir a sociedade educada de que tanto reclamamos a falta. Às vezes, no entanto, são os leitores que se tornam inspiração e renovam meu ânimo.

O caso da Ana Paula Oliveira é um exemplo. Ela me escreveu no final do ano passado e contou como era muito feliz com os filhos em um centro educacional infantil municipal de São Paulo apesar de ter condições financeiras de matriculá-los em instituições particulares. Mas naquele momento se via tendo que abrir mão da ideologia que a levou à escola pública. Foi ela que me sugeriu a criação de uma página no Facebook na esperança de encontrar outras famílias em situação similar com quem pudesse conversar.

Ontem ela me escreveu novamente e contou como foi a busca por uma nova escola. Com sua autorização, compartilho o texto aqui:

“Minha filha segue no mesma CEI (centro de educação infantil) perto de casa e continuo satisfeita. Meu filho tinha sido encaminhado ao CEU (centro educacional unificado) e eu definitivamente não estava satisfeita. O CEU aqui perto de casa é enorme , fica de frente para uma favela. Minha maior preocupação era com relação a criminalidade da rua, que fica em uma região mais afastada. Mas além disso, o CEU atende todas as idades, do CEI até o 2º grau. E as acrianças se misturam nos pátios, nos refeitórios e nas piscinas. É muita gente misturada. Portões abertos para circulação. E quando pensava nisso entrava um pouco em pânico. Especialmente porque ele veio de um CEI com apenas 100 crianças. Tínhamos contato com a diretora e a coordenadora da escola, éramos atendidos plenamente dentro de um espaço simples, porém com um quintal verde ( tinha até horta!) e ele era muito feliz. No CEU não tem uma árvore! É puro concreto.

Depois de quotar e visitar algumas particulares, meu coração dizia que ainda não tinha encontrado a escola dele. Por valores em torno de 800 reais por período integral, eu estaria comprando algo que não me satisfazia plenamente. Escolas pequenas, prédios apertados, sem área verde e com cuidadores ao invés de educadores. A preocupação (dos responsáveis pelas instituições) era em me contar que meu filho teria inglês, lição de casa e já escreveria seu nome até o fim do ano. Ele tem 4 anos e meio, será que eu quero que ele estudo inglês agora? Enfim, após tantos questionamentos, acabei voltando a ler na internet sobre algumas Emeis (escolas municipais de educação infantil) com o objetivo de buscar algo no setor publico. Fiquei com três escolas para visitar.

Liguei para a Emei Leopoldina, agendei uma visita e fui super bem recebida. É muito bem localizado, as diretoras me deram uma aula sobre ensino publico e me encorajaram a colocar meu filho na escola. E a vaga saiu logo depois. Anteontem ele começou na escola. Estamos muito contente com a nossa escolha. Disponibilizo algumas fotos (abaixo).

Sim, existem opções de ensino público neste País que valem a pena. Escolas melhores do que as opções que você pode pagar no particular, sem que seu orçamento afunde. Escolas onde seu filho não vai ser atendido por uma cuidadora estagiária, pois o governo exige que se tenha ao menos pedagogia.”

frametastic

Fiquei surpresa com a crítica ao CEU, considerado uma escola modelo por oferecer tantas opções de esporte e cultura em um único lugar. Nada como alguém com senso crítico e interesse de mãe para avaliar. Quanto a comparação com as escolas particulares, vão na mesma linha da que eu fiz no ano passado, após visitar berçários com mensalidade de R$ 1,5 mil (na época) e espaços para brincar praticamente inexistentes (leia aqui).

A inspiração a qual eu me referi é outra. Diante da insatisfação, Ana Paula não tomou o caminho fácil da resignação – nem manteve o filho onde estava, nem abriu mão das suas convicções em relação à educação. Pode ser que alguma vez não dê certo. Ela e eu somos exemplos de que também pode ser que dê.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014 Sem categoria | 07:00

Dá para contar 200 na sua escola?

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Hoje mesmo para alguns e muito em breve para outros vai ocorrer o primeiro dia letivo de 2014. Gostaria de fazer um convite a todos para que contem comigo a quantos chegamos ao longo do ano. Por lei, o mínimo são 200 com pelo menos quatro horas de atividade com os alunos. Embora não haja notícia de sistema público que descumpra a regra, desconfio que esta seja uma das formas mais obvias de usurpar o direito à educação no Brasil.

A princípio, pode parecer fácil chegar a 200 dias letivos perto dos 365 do ano, mas uma conta arredondada rápida mostra que não é tão simples assim. Só de férias – janeiro, metade de dezembro e o recesso de julho – é preciso descontar ao menos 60 dias. Se subtrairmos mais os finais de semana dos 10 meses restantes, quase 90 dias, sobram apenas 215. Destes ainda é preciso descontar feriados.

Em 2014, três das principais folgas nacionais (7 de setembro, 12 de outubro e 2 de novembro) caem em domingos e uma (15 de novembro) em um sábado. Não é, portanto, dos anos com mais interrupções previstas nas aulas. Ainda assim, cinco dias úteis do período letivo são feriados nacionais e, muito provavelmente, pode-se contar também sem aulas a quarta-feira de cinzas, duas emendas possíveis, uma após Dia do Trabalho e Corpus Christi (ambos em quintas-feiras) e os pontos facultativos do Dia do Professor (também quinta-feira) e Dia do Servidcaor Público (terça-feira). Resultado final: sobram 205 dias úteis para se promover 200 dias letivos. E reuniões. E com a Copa do Mundo no meio.

Em São Paulo, por exemplo, foram publicadas duas portarias para que as escolas montem seus calendários. Uma, destinada às instituições municipais diretas, estabelece férias escolares até 4 de fevereiro, entre 12 de junho e 14 de julho, enquanto ocorrem os jogos, recesso entre 15 e 19 de outubro e fim de ano letivo no dia 23 de dezembro. Só aí são 81 dias a menos no calendário. A segunda, para centros educacionais administrados por instituições conveniadas traz uma tabela surreal que sugere 217 dias letivos incluindo 22 apenas em dezembro.

Os números ainda não levam em consideração greves, dispensa por falta de professores e motivos imprevisíveis. Há escolas que deixam de ter aula por enchentes, por exemplo. Por outro lado, atividades culturais que envolvam alunos podem ser contadas. Chega-se a 200? Se você é pai, mãe, aluno ou educador disposto a descobrir, basta contar ao longo do ano. Se conhece alguém em condições de fazê-lo, por favor, repasse meu convite.

Sei que entre muitos professores o pedido vai soar antipático – quantos de nós gostaríamos que alguém vigiasse nosso tempo de trabalho? – mas a proposta é levar a educação a sério, começando por garantir o tempo mínimo de investimento nela ao longo do ano.

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014 Sem categoria | 07:00

Que em 2014 a educação brasileira pare de repetir o ano

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O ano letivo nem começou e já são previsíveis as notícias em relação à educação no Brasil. Anote aí: já nos primeiros dias de aula a maioria dos alunos de escolas públicas ficará sem estudar por falta de professor. Depois, quando saírem os dados sobre as últimas avaliações educacionais, a desigualdade entre as regiões do País e pobres e ricos será chocante. O pior resultado por etapa será o do ensino médio e, por área, em matemática.

Nada disso é adivinhação. Sei que será assim da mesma forma que um aluno reprovado por anos seguidos sabe o que lhe espera quando começa de novo a mesma série. Desde a década passada os principais problemas e demandas são traduzidos nos mesmos títulos ao longo do ano: “Professores em greve em São Paulo (ou Rio de Janeiro, ou Brasil inteiro) reivindicam piso salarial (ou jornada) garantida por lei”, “Ensino Médio tem pior resultado”, “Só 10% aprendem o básico em Matemática”, “Senado (ou Câmara) muda projeto do Plano Nacional de Educação (PNE)”, “Faltam vagas em creches em todo o País” e “Violência cresce nas escolas”.

Em 2013, até no resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) o Brasil se saiu igual, tão mal quanto já estava em 2009. No meio do ano, quando as manifestações começaram a incluir a qualidade da educação na pauta, o “repetente” ganhou reforço e motivação e chegou a se sair muito bem no teste do momento – a aprovação dos royalties do petróleo para o setor. Mas no final, pela quarta vez, fechou o ano sem definir suas metas para a década, ou seja, decidir de vez e aprovar o PNE. Se nem plano temos, fica difícil avaliar, focar e atingir os objetivos.

Tal qual uma criança reprovada, começar de novo com os mesmo obstáculos que não conseguiu transpor no passado, acarreta em uma série de problemas. O professor acredita cada vez menos que vai ser valorizado. O aluno já nem espera ter todas as aulas. Os pais antecipadamente contam com problemas de estrutura nas escolas. Mães se resignam diante da falta de vagas para seus bebês. Até mesmo nós jornalistas começamos a diminuir o espaço reservado a um problema que, por mais importante e escandaloso que seja, como é o caso, se torna assunto repetido. Fica cada vez mais difícil para um repórter do setor convencer responsáveis pelas capas de que as manchetes listadas no começo deste texto ou “PNE será votado hoje” é prioridade estratégica e urgente.

É preciso parar de repetir. Educadores que se dedicam a interromper ciclos de repetência nas escolas chegaram a dois caminhos. O mais comum se traduz em uma velha polêmica no sistema paulista de ensino, a progressão continuada: para não causar problemas com baixa autoestima e abandono, estudantes avançam nas séries mesmo que sem o resultado esperado. Já falei que sou contra, por excessos que camuflam as falhas do sistema. Seria o equivalente a baixar as expectativas do Plano Nacional de Educação para que ele se encaixe no orçamento do governo e passemos ao próximo assunto.

A segunda via é mais difícil, exige olhar individual do professor para cada aluno, tempo e recursos. Para os adeptos desta linha sempre é possível ensinar, mas há necessidade de se encontrar uma forma mais eficiente de motivar e promover aprendizagem diante do fracasso no método tradicional. Me parece uma pista de como lidar com o repetente em questão. A estratégia tradicional de reclamar do governo à distância não funciona. Fica para todos nós o desafio de fazer diferente.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013 burocracia, política | 09:37

Cota para creches: melhor do que para a universidade

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A discussão sobre cotas nas universidades está ficando para trás. Depois do Supremo Tribunal Federal (STF) apresentar argumentos irrefutáveis na decisão a favor do benefício, em 2012, até os redutos mais conservadores, como a Universidade de São Paulo (USP) começam a aderir. Se faz sentido buscar formas de compensar a falta de oportunidades dos jovens negros e pobres, muito mais sentido faz dar formação educacional à população mais vulnerável a partir da primeira infância e esperar que outras gerações não precisem do mesmo recurso.

Apesar dessa obviedade, só a partir do ano que vem as creches de São Paulo começarão a ter cotas. Atualmente ocorre o seguinte absurdo: o município atende 46% das crianças de zero a 3 anos em centros de educação infantil. É pouco, no entanto, entre os mais pobres, aqueles cadastrados para receber o Bolsa Família por ter renda mensal per capital de até R$ 70, o atendimento é ainda menor, de apenas 22%. Começa aí um novo ciclo de desigualdade.

Defendo o tempo todo a participação efetiva da sociedade crítica e escolarizada na educação pública como  forma de exigir a qualidade que ela deve ter. Por conta disso, inscrevi meus filhos em creche municipal sem jamais esperar que as vagas fossem aparecer tão depressa, como já expliquei aqui. Durante este primeiro ano como mãe de alunos fiz o que esteve ao meu alcance para garantir a melhor escola possível a todas as crianças do centro de educação infantil, desde inserir na pauta do Conselho de Escola questões que interessavam ao conforto das crianças na entrada da instituição, até colaborações financeiras e de materiais, passando por exposição de problemas de políticas públicas e cobrança de melhorias.

Acredito ter ajudado de alguma forma e continuo torcendo para termos cada vez mais interessados em melhorar a escola pública dentro dela. Mas tudo isso pressupõe o acesso à escola para todos, que existe de direito, mas não de fato. A diminuição da fila precisa ser trabalhada de duas formas que todos conhecem bem: aumentando a capacidade de atendimento total, mas também passando a frente aqueles com necessidades especiais. 

Pela medida, 20% das novas vagas serão destinadas a beneficiários do Bolsa Família. Como o porcentual de crianças nesta situação é menor do que isso (atualmente de 5% da fila, mas com potencial para crescer), em pouco tempo todos devem ser atendidos. Ficarei muito feliz se forem colegas de turma dos meus filhos e tenho certeza que farão bem uns aos outros.

 

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013 Sem categoria | 16:57

O último dia de aula e a entrega do material escolar

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Hoje foi dia de festa de encerramento das aulas no Centro de Educação Infantil em que meus filhos estudam. Com apoio do Rotary e um trabalho caprichado da equipe estava tudo lindo. Teve papai noel no trono vermelho, decoração especial, muitos presentes, pipoca, bolo, cachorro quente e, surpresa, material escolar!

Os kits que deveriam ser entregues no começo do ano vieram fechados nas malas dos alunos. Dentro de cada um, giz de cera, tintas de vários tipos, pincéis, massa de modelar e a agenda. Detalhe: com calendário 2012 e 2013. No caso da unidade, não faltou nada porque a Associação de Pais e Mestres (APM) conseguiu comprar todo material que os professores pediram, mas terá sido assim em todas as escolas?

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 A Prefeitura de São Paulo diz que enviou os kits em outubro e que orientou as escolas para que usassem material de anos anteriores e adquirissem o que mais fosse necessário com o dinheiro repassado por ela pelo Programa de Transferência de Recursos Financeiros. Como se este recurso estivesse ocioso.

 

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013 burocracia, professores | 07:00

Pais não têm espaço para participar da escola

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Os educadores têm razão em reclamar que a atenção dos pais à escola dos filhos deveria ser maior. A falta de acompanhamento das famílias endossa o desinteresse dos alunos pelo estudo e dos políticos por investimentos na área. Mudar isso, no entanto, exige esforços de todos e não apenas dos pais. Neste primeiro ano como mãe de alunos percebi que participar é mais difícil do que se imagina.

Espaços institucionalizados existem, mas de fato, não. Sabe aquele envelope pomposo recebido de um parente distante que se sentiu obrigado a lhe chamar para o casamento? É mais ou menos isso, só que no caso das escolas não me refiro aos convites para festas – estes são calorosos e coloridos relembrados pelas professoras reiteradamente. O chamamento feito sem olho no olho ou perceptível vontade de receber é exatamente o que seria para a efetiva participação na educação.

Em teoria, os pais são parte fundamental de dois importantes órgãos auxiliares da gestão de cada unidade: a Associação de Pais e Mestres (APM) e o Conselho de Escola. Em ambos é obrigatório ter familiares inscritos em proporção similar a de educadores. No começo do ano, quando os gestores têm dever de informar quem serão os membros, as escolas atraem os nomes necessários. Depois, sem a necessidade de quórum, não os cultivam.

Tenho até um “cargo” de vice-presidente do conselho no centro de educação infantil em que meus filhos estudam, mas perdi duas reuniões simplesmente por não ter visto o agendamento afixado em um painel de recados na entrada com poucos dias de antecedência. No começo, me culpava e procurava a direção para me informar do que foi conversado, mas com o tempo aprendi que os encontros têm pauta pré-definida tomada por questões burocráticas. As votações ou são óbvias (como a autorização para compra de uma bomba para encher bexiga de R$ 30) ou dizem muito mais respeito aos funcionários do que a pais e a alunos (como a divisão do horário de trabalho dos docentes em uma festa). Logo as mães – que faltam em seus trabalhos e organizam a família para participar – se perguntam o que fazem ali.

Comentei isso com a equipe gestora na última reunião quando discutíamos o novo regimento escolar que todas as unidades estão preparando a pedido da Secretaria de Educação. A diretora e a coordenadora pedagógica me explicaram que já houve avanços em relação a um passado recente e se mostraram abertas a ideias de como tornar a participação mais convidativa.

Para refletir sobre as possibilidades, acho que é fundamental responder a uma pergunta: afinal, por que a presença dos pais importa? Para cada resposta, pode-se buscar diferentes soluções para criar espaços efetivos de participação.

Educadores que esperam aumento da importância da escola para a família, podem pensar em formas dos adultos participarem das aulas. Encontrar modelos em que os pais possam ser monitores ou fazer uma leitura na sala dos filhos, por exemplo. Se a ideia é que os responsáveis saibam mais sobre a rotina escolar do filho, talvez a comunicação possa ser melhorada e intensificada com o compartilhamento real dos problemas e dos sucessos, não para comunicar ou coibir, mas em busca de parceiros na solução. Quem pensa que a aproximação com a comunidade traz benefícios, pode organizar projetos que envolvam o entorno e aproveitem conhecimentos e recursos humanos da vizinhança, etc.

O importante é que os pais possam se perceber úteis na prática e não apenas um nome para atender a imposições legais disfarçadas de democracia.

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terça-feira, 10 de setembro de 2013 Educação infantil | 06:00

A creche pública e o Central Park

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Tive a felicidade de conhecer o Central Park, em Nova York, quando estava grávida. Logo, reparava ainda mais nas crianças e na organização dos adultos em torno delas. Fiquei encantada e com inveja. O parque mais famoso do mundo é um quintal comunitário. É como se a cidade toda fosse um condomínio com uma bela área de lazer, mas sem guarita, clausura e outras restrições de entrada que nos lembram a sociedade falida a qual pertencemos.

Também não se trata de um programa para os dias de folga como os belos parques de São Paulo, mas de um espaço comum para uso diário. O Central Park é acessível a pé para boa parte da cidade e, quando está mais longe, há outras grandes áreas verdes com os mesmos equipamentos e regras para convivência infantil. As crianças que moram perto se conhecem ali da melhor forma possível, brincando, e os pais e empregadas tratam a proximidade com naturalidade, embora todos saibamos que lá também há ricos, pobres e tudo que existe no meio do caminho.

Uma das razões de manter meus filhos em uma creche pública é a oportunidade de oferecer a eles algo parecido. Antes mesmo de entender a diversidade, eles convivem com ela. Há brancos dos olhos verdes e negros tanto entre os colegas como pais, professoras e funcionários. Alguns alunos chegam na escola de carro, outros a pé, de ônibus, transporte escolar e – o que desde já eles invejam – na cadeirinha garupa de bicicleta. Durante o tempo em que estão lá dividem os mesmos brinquedos, a mesma merenda, escutam as mesmas músicas e perseguem as mesmas bolas de sabão.

Era minha primeira ida aos Estados Unidos e confesso que achava que encontraria um povo arrogante e que só conhecia a própria realidade. Talvez Nova York seja uma exceção, mas foi o contrário. Além da enorme valorização da diversidade cultural, as pessoas demonstraram apurado senso de comunidade e extrema educação. Nada me tira da cabeça que essas qualidades começam a se construir na fila do escorregador, balançando lado a lado ou dividindo o tanque de areia.

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