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quarta-feira, 28 de agosto de 2013 Educação infantil, índices, política | 10:00

É a vez das creches perderem qualidade?

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Às vezes algo muito ruim pode ser o melhor diante da outra alternativa. É o caso das escolas públicas de ensino fundamental a partir dos anos 1980. As salas ficaram superlotadas, foram construídas instalações precárias e os professores deixaram de ter reajustes por anos já que os orçamentos para pessoal estavam voltados à contratação de mais gente para dar conta do expressivo aumento de alunos. A qualidade do ensino caiu, mas sem dúvida seria pior seguir com aquele sistema excludente, que deixava de fora uma em cada cinco crianças brasileiras.

A educação infantil vive agora momento similar. Como expliquei no primeiro texto deste blog sobre minha decisão de matricular meus filhos em creche pública, esta etapa de ensino não tem os mesmos problemas de qualidade que são gritantes no ensino fundamental e, mais ainda, no ensino médio. Pelo contrário, os centros de educação infantil da Prefeitura de São Paulo têm professores com melhores contratos e formação dos que a grande maioria das instituições particulares, além de mais espaço e equipamentos para os alunos. O sistema, porém, não dá conta da demanda.

Uma audiência pública que começa nesta quinta-feira em São Paulo vai discutir como garantir atendimento as 127 mil crianças que aguardam vagas em creche pública na cidade. Em tese, o direito à educação infantil já existe. Entre as famílias que esperam, inclusive, há milhares com liminares judiciais para matrícula imediata, mas o artifício só as coloca em uma fila dos que têm o mesmo documento. Ações coletivas também foram vencidas pelo Ministério Público nos últimos anos, porém a Prefeitura não conseguiu atender e as decisões resultaram apenas em multas.

Vamos continuar privando estas crianças de escola? Ou vamos fazer contratos emergenciais de construção e contratação de profissionais, convênios menos rigorosos e, o mais doloroso na minha opinião, colocar mais crianças em cada sala do que existe atualmente? Sempre é possível manter o discurso de expansão com qualidade, O governo atual promete 16 mil vagas a mais este ano, 96 mil até 2014. Mas vale lembrar que se tratam de crianças de zero a três anos, ou seja, para estas já na fila e outras tantas que estão nascendo ou na barriga de suas mães, não existe “médio prazo”.

Quem vive a rotina das creches, inclusive mães como eu, tende a defender a manutenção dos padrões atuais e até melhorias. Sobrecargas de alunos por educador ou convênios com organizações que não atendem os mesmos padrões de qualidade certamente causariam transtornos para as crianças que são totalmente vulneráveis nesta faixa etária. Os danos seriam grandes.

Maior ainda é o problema de quem fica sem atendimento. O defensor público Luiz Rascovski, do grupo que organizou a audiência pública deu um exemplo. “Tem mãe desesperada porque responde a processo e corre o risco de perder o filho que foi abusado pelo cuidador com quem ela teve de deixar a criança por falta de vaga.” Pronto, eis que um bebê que volta para casa com assadura ou mesmo uma criança que não tem plena atenção para se desenvolver parece mais aceitável.

A prioridade tem que ser atender a todos. Ao governo cabe apenas fazer escolhas, algumas tão difíceis como a educação destas crianças ou a construção de um novo hospital e outras que me parecem mais simples como dissociar o atendimento social ao educacional. Minha família, por exemplo, não precisa ganhar leite, nunca pedimos e até já tentei devolver, mas ganhamos.

Pode ser que algumas decisões acabem mesmo incorrendo na queda de qualidade. Selecionar por renda, por exemplo, é uma alternativa, embora seja sabido que a saída da classe média da escola pública contribuiu para a degradação da educação básica. Como tentei demonstrar com os pontos de interrogação desde o título deste texto, não tenho resposta para o problema. Torço para que a universalização da educação infantil aconteça o quanto antes e acho vital que ela não acarrete em um ciclo de perda de qualidade tão forte quanto o do ensino fundamental que, passados 30 anos, ainda não se recuperou totalmente.

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10 comentários | Comentar

  1. 10 Giselle Gomes 28/08/2013 23:48

    Todas as crianças tem direito a uma educação de qualidade, trabalho na área, em uma entidade do terceiro setor, conveniada, que administra em parceria com a prefeitura centros de educação infantil em bairros carentes de São Paulo e que tem quase que em sua totalidade aprovação dos seus usuários. E ao contrário do que dito na matéria, as Diretorias Regionais de Educação que os supervisionam são muito criteriosas na fiscalização da prestação mensal de contas. Acredito que a prefeitura deve atuar mais efetivamente quanto a carência de prédios e instalações nas regiões onde há demanda, que tem sido uma das maiores dificuldades e principalmente, no investimento para a formação dos profissionais de educação, categoria essa, que necessita de valorização. Parceiros há, necessidade há, identificação das carências já foram apontadas mas falta força, falta vontade. Tomara que através de iniciativas populares, audiências públicas, possamos debater sobre as melhorias a serem feitas para o benefício de nossas crianças, respeitando o direito a uma educação de qualidade.

  2. 9 Rose 28/08/2013 21:14

    Cinthia concordo com vc. Sou funcionária de uma creche e vejo na real como a qualidade do ensino caiu. As crianças de creches são muito pequenas e necessitam de total atenção para o seu desenvolvimento conforme o referencialcurricular da edç inf.,e com a super lotação o lado pedagogico acaba muitas vezes sendo deixado de lado para atender o social. Concordo com o Paulo H. Seria fundamental uma pesquisa séria e mostrar com mais exatidão quantas vagas são ocupadas por crianças que os pais não trabalham e qtas trabalham e quantas crianças que passaram na fila de espera usando o recurso do Conselho Tutelar e que mentiram ou omitiram informações, é muita demagogia deste Defensor Publico, haja vista que, a vida escolar continuar na pré-escola,ensino fundamental etc. Até quando a creche será vista como deposito de crianças e não como deveria ser ESCOLA. Pois, é nos primeiros anos de vida que a criança desenvolve suas habilidades, formando o futuro cidadão.

  3. 8 ANDRÉA 28/08/2013 21:12

    OLÁ,SOU EDUCADORA,TRABALHO NUM CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL,HÁ 10 ANOS…DIARIAMENTE,VIVENCIAMOS EXPERIENCIAS MARAVILHOSAS JUNTO AOS PEQUENOS,CONTUDO É IMPORTANTE RESSALTAR QUE,MUITOS DOS FEITOS,SÓ ACONTECEM GRAÇAS AO COMPROMETIMENTO,DOS QUE ALI TRABALHAM….VALE LEMBRAR AINDA, QUE A MATRICULA,É UM DIREITO DA CRIANÇA,INDEPENDENTE DA SITUAÇÃO DA FAMILIA.
    ACREDITO,QUE NÃO HÁ DE FATO,UM PLANEJAMENTO POR PARTE DO PODER PÚBLICO…LOTAR SALAS,SÓ GERA NÚMEROS PARA Q “POLITICOS” POSSAM EXIBIR COMO FALSOS RESULTADOS….ME INDIGNA A FORMA COMO ESSE MOMENTO,TÃO IMPORTANTE DA VIDA DAS NOSSAS CRINÇAS É TRATADA…HÁ E PORQUE NÃO USAR/OTIMIZAR TANTOS ESPAÇOS OSIOSOS E INVESTIR DE FATO EM EDUCAÇÃO?????

  4. 7 marcia 28/08/2013 17:32

    Cinthia o problema para mim é politico por que o governo fica distribuindo bolsa familia, bolsa escola para ficar de bonzinho “homem branco tão bonzinho” ( não generalizando quem precisa tem muita gente que é trabalhador) mas tem muita gente também que não trabalha e vive desses programas sociais e quer matricular a criança para ganhar leite, bolsa escola o que acontece é que esses programas sociais acabam incentivando quem não gosta de trabalhar para ficar tendo filho.O governo que quer perpetuar poder tenta solucionar o problema distribuindo esses “beneficios” mas porém acaba gerando estes problemas de superlotação nas creches de falta de vaga, incentivando a taxa de natalidade.
    Esse programas sociais chamado bolsa escola na verdade foi mais uma das estrategias adotadas para na verdade tapar o sol com peneira somente para dizer que tá todo mundo matriculado e que todas as crianças estão na escola mas na verdade o que existe é uma má qualidade no ensino, crianças que estão na escola que nem sabem ler e escrever.

  5. 6 marcia 28/08/2013 17:30

    Cinthia o problema para mim é politico por que o governo fica distribuindo bolsa familia, bolsa escola para ficar de bonzinho “homem branco tão bonzinho” ( não generalizando quem precisa) mas tem muita gente também que não trabalha e vive desses programas sociais e quer matricular a criança para ganhar leite, bolsa escola o que acontece é que esses programas sociais acabam incentivando quem não gosta de trabalhar para ficar tendo filho.O governo que quer perpetuar poder tenta solucionar o problema distribuindo esses “beneficios” mas porém acaba gerando estes problemas de superlotação nas creches de falta de vaga, incentivando a taxa de natalidade.
    Esse programas sociais chamado bolsa escola na verdade foi mais uma das estrategias adotadas para na verdade tapar o sol com peneira somente para dizer que tá todo mundo matriculado e que todas as crianças estão na escola mas na verdade o que existe é uma má qualidade no ensino, crianças que estão na escola que nem sabem ler e escrever.

  6. 5 Wagner 28/08/2013 16:58

    Minha cidade cede terrenos para igrejas para “uso social”, não é esse o termo correto. Na prática, a igreja agraciada usa o imóvel para uso dela. Então, enviei mensagem à prefeitura, sugerindo que essas igrejas abram salas para creches, de segunda a sexta-feira. Se 10 igrejas abrirem uma sala para 10 crianças, serão 100 crianças atendidas. Quanto aos funcionários, isso é problema exclusivo do poder público. Logicamente não irá resolver o problema, mas é mais uma alternativa.

  7. 4 Edu 28/08/2013 15:31

    As soluções para a educação, assim como para outras áreas sensíveis do serviço público, geralmente tem que ser multidimensionais. Acredito que um pouco das ideias apresentadas pela colunista, e outras, deveriam aparecer nos programas das prefeituras. Elas causariam queda de qualidade? Sim, provavelmente. Se o papel da sociedade civil é demandar o atendimento ideal para toda a população, ao poder público cabe equacionar variáveis para ofertar o melhor possível para a maior parcela dela, sem excluir as minorias. No caso, estamos falando de um direito constitucional e atribuído pela LDB, que os Estados já avançaram em sua competência, faltando ser cumprido pelos Municípios.

  8. 3 Paulo Henrique 28/08/2013 13:27

    Seria fundamental uma pesquisa séria e mostrar com mais exatidão quantas vagas são ocupadas por crianças que os pais não trabalham, quantas crianças que passaram na fila de espera usando o recurso do Conselho Tutelar e que mentiram ou omitiram informações, é muita demagogia deste Defensor Publico, haja vista que, a vida escolar continuar na pré-escola,ensino fundamental etc. a Prefeitura paulista tem já aprovados em concurso publico professores de ensino Infantil, falta talvez a aceleração no processo de construção de novos prédios, a qualidade está em risco nas creches conveniadas, lá os cuidadores não são formados em Pedagogia e a carga horária destes é de 8 horas.

  9. 2 Edimar Pereira 28/08/2013 11:22

    Muito pertinente suas palavras. Também tenho um filho na creche pública, no município de Serra/ES, e o padrão é muito bom. Mas você toca na questão de incluir todas as crianças nessa faixa etária de idade é um problema muito sério a ser enfrentado no país, Os nossos governantes não parecem muito preocupados com isso e o que vai acontecer para a abertura de mais vagas é o que você disse: vai aumentar o número de alunos por turmas, pois perspectivas de construir novas creches para atender a essa demanda a curto prazo, não vai acontecer. Infelizmente no Brasil tenta-se resolver um problema da pior maneira e gerando tanto outros problemas. Muito bom o seu texto.

  10. 1 DANIELLE 28/08/2013 11:20

    Cinthia concordo com vc. Sou funcionária de uma creche e sinto que apesar de termos esses deficts na educação infantil pior ainda é a realidade das mães da creche muitas menores de idade que não trabalham , ou seja não tem respondabilidade alguma, mas mesmo assim temos que matricular.

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